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Emicidismo — Representatividade como alavanca

Por Nelson Melo

Publicação original: 28/07/2020

Imagem: Diego Takamatsu

Dia 27 de julho de 2020, segunda-feira, dia que Leandro Roque de Oliveira, mais conhecido como Emicida, “sentou” na cadeira de um dos programas mais tradicionais de entrevista do país. Negro, rapper e ativista, Emicida soma a uma pequena lista de pessoas negras entrevistadas no programa. Dentro dessa lista, podemos citar algumas entrevistas de destaque, como a do Professor Silvio Almeida, o rapper Mano Brown, o geógrafo Milton Santos, o ator Lázaro Ramos, e poetisa, jornalista, escritora, cantora e atriz Elisa Lucinda.

Mas afinal, por que a entrevista de Emicida merece tanto holofote? De início vamos ao seu nome, que é a soma de duas palavras “MC” e “Homicida”, referência a sua grande habilidade durante as batalhas de freestyle, onde conquistou enorme destaque com inúmeras vitórias durante a sua trajetória.

Já consolidado na música brasileira, o mesmo criou um acrônimo para o seu nome, E.M.I.C.I.D.A. = Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte. E tem um trecho da música que tem o seu acrônimo como nome que traz o seguinte:

“Pra variar é nóis, favela no ar! (irmão) / E.M.I.C.I.D.A. / sete letras, um propósito, eu não vou parar!”

E para a nossa alegria, ele ainda não parou. A música é de 2009, e aparentemente o propósito de Emicida continua sendo o mesmo. Desde então já lançou um selo independente, que é o Laboratório Fantasma, não foi apenas indicado para inúmeros prêmios musicais, inclusive ao Grammy Latino por duas vezes, como também venceu uma quantidade significativa de prêmios. Se olhar para trás, Emicida já conseguiu se consagrar como músico, mas o seu compromisso não se resume com a música, a música é um instrumento político para Emicida!

2019 foi o ano do lançamento do projeto AmarElo, para muitos o álbum causou uma estranheza inicial ao não seguir a linha rasgada que é uma marca do próprio. Porém, mesmo com um estilo um pouco mais diferente o álbum seguiu bem o propósito que o rapper sempre carregou na sua carreira, apresentando a música como força, representatividade e emancipação política, sempre focando na recuperação da autoestima e na necessidade de um tratamento digno às pessoas.

AmarElo não é apenas um álbum, é de fato um projeto que versa sobre a saúde do ser humano, principalmente os da “quebrada” a terem um acesso/experiência sobre como ficar bem com si próprio. Saúde corporal, mental, pensamento coletivo e execução das ideias, esses quatro temas foram objeto do projeto AmarElo Prisma, Podcast construído de forma colaborativa em prol de uma mudança de comportamento que permita um respeito à pluralidade. Já AmarElo — Um Filme Invisível também é um Podcast, porém, com o intuito de explicar a construção do álbum, apresentando as suas referências. E já foi informado que ainda vem mais produtos do projeto AmarElo.

E não tem como não falar que a participação ao Roda Viva é um dos projetos que compõem AmarElo. Abordou diversos assuntos que encontram-se presentes no seu álbum, como o racismo, saúde mental, liberdade, dignidade e política. Emicida mostra para quem ainda não o conhecia que o seu significado e representatividade vai muito além do papel dele como cantor, e sim pelo que ele defende e o que representa.

Ao ser questionado sobre os avanços da população negra no debate do Brasil, o rapper apontou a existência de uma condição de melhora, porém ainda longe de ser a forma suficiente para a população negra, uma vez que o racismo ainda atinge o país cotidianamente. Apontou que as cenas que viralizam de racismo só chocam aos brancos, uma vez que essas agressões ocorrem diariamente na vida de uma pessoa preta.

Quanto a presença da comunidade LGBT+ no espaço do rap, Emicida foi cirúrgico ao comparar com a posição de não lugar das pessoas negras, uma vez que os LGBT+ também ocupam. Para uma pessoa negra o não lugar é imposto pela sociedade, como o local correto de ocupação. Essa situação também é imposta, por muitas vezes para os LGBT+, principalmente para as pessoas trans, e ao refletir sobre esse ponto o rapper indagou:

“Eu quero ser uma ponte ou quero ser um muro? Essa mesma exclusão que essas pessoas sentem agora, eu já na minha vida. Eu decidi que eu quero ser uma ponte!”.

E em sua trajetória musical vimos que ele é de fato ponte, fazendo parceria com diversos artistas da comunidade, como Rico Dalasam, Majur e Pabllo Vittar.

Adriana Couto, uma das integrantes da bancada, relatou sobre a construção do ser negro a partir do racismo, ou seja, a partir da opressão e do dano causado e trouxe o livro infantil Amoras, de Emicida, como um contraposto a construção dela como negra. Uma vez que o livro possibilita construir a imagem com orgulho, ou como a mesma pontuou:

“A gente precisa conectar as nossas crianças com a negritude enquanto potência, não enquanto tragédia.” .

Deixando o rapper praticamente sem palavras, informando que roubaria essa frase para falar sobre a construção do ser negro ainda quando criança.

Também merece destaque a negativa de uma eventual candidatura política. Quando Pedro Antunes questionou se Emicida arriscaria em alguma eleição, de imediato o rapper respondeu: “Cê tá doido?!”. Mas é inegável que o Emicida faz política. Essa política começa no momento em que ele contrata uma costureira, para a Laboratório Fantasma, pagando um salário digno e possibilitando que a mesma aprecie o desfile da coleção, que ela mesmo costurou, até quando sobe aos palcos para fazer o seu show.

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Emicida no seu show de lançamento de AmarElo — Foto: Jeferson Delgado @jefdelgado

O “emicidismo” figura como um sentimento político, sentimento este que muitos só conseguiram sentir após ter contato com Emicida. Seja por meio de suas músicas, pelo seu selo independente, ou pelos seus livros. Emicida é a prova que a política não se estrutura mais como antigamente. Não é necessário ser um parlamentar, ser partidário ou qualquer outra função tida de político, para fazer política.

Emicida traz a esperança para muitos, encontra com facilidade na internet pessoas negras que dedicaram a sua formatura a ele. E a explicação normalmente é a mesma, é uma voz de acalanto, ao mesmo tempo que externa todos os problemas comuns para as pessoas negras, principalmente as de quebrada. E sempre com a lembrança que “é nóiz por nóiz”!

“Aí, maloqueiro, aí, maloqueira / Levanta essa cabeça / Enxuga essas lágrimas, certo? (Você memo) / Respira fundo e volta pro ringue (vai) / Cê vai sair dessa prisão / Cê vai atrás desse diploma / Com a fúria da beleza do Sol, entendeu? / Faz isso por nóis / Faz essa por nóis (vai) / Te vejo no pódio”

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