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O preconceito no Brasil aumentou ou saiu do armário?

 Por Adriano Viaro



Um dos grandes problemas interpretativos e de compreensão da nossa sociedade está na falta de percepção de como os processos sociais se deram ao longo da história. Não raro, verificamos nos mais diversos espaços de debate a afirmação de que as manifestações preconceituosas “aumentaram nos últimos anos”. Primeiramente, precisamos entender preconceito como sentimento e discriminação enquanto atitude. E é somente deste modo que entenderemos que o preconceito não só já estava nos nossos espaços e ideias, como em mesma intensidade.

Como explicar então a percepção de aumento? Se formos analisar o nível de incômodo das ditas classes dirigentes, ou da parcela significativa de “conservadores dos costumes” de nossa sociedade, verificaremos que durante o manquitolar do século 20 — tido então como período de evolução das manifestações sociais — os membros das ditas pautas identitárias viviam sob a égide do conservadorismo político e, acima de tudo, dos costumes.

Grosso modo, mulheres viviam em postos e locais de subserviência, sobretudo até os idos de 1970, quando começa, de forma modesta, a libertação sexual feminina. Não precisamos ir muito além de textos e bancos universitários para entendermos que a libertação da mulher, sofre, ao longo dos séculos, e, principalmente a partir da segunda metade do século 20, a repressão de forças refratárias a sua ascensão social. Ou seja, mulheres vivendo em espaços de subserviência não incomodavam o conservador — aqui tido e posicionado como opressor — e mantinham-se dentro do cerco criado pela força vigente.

Não diferente disto, o movimento GLS (sigla da época) podia viver “desde que permanecesse no armário”, e, deste modo, não perturbasse a ordem com sua “imoralidade”. Ser gay, ou LGBTQ+, até os idos do século 20, era ser um “anormal” ou algo definido pela família tradicional brasileira, na melhor das hipóteses, como “normal, mas não natural”. O que tínhamos neste país, que cantava o hino em prosa e verso e urrava diante dos feitos da seleção canarinho, era a manutenção da ordem imposta pelo verde-oliva de suas fardas.

Nesta mesma esteira, o movimento negro, ainda não consolidado de forma organizada, mas com frente combativa às agruras de seus atores, ocupava os espaços mais baixos no triângulo social e, não raro, destacava-se apenas sob a alcunha de “negro tipo A” ou “negro de alma branca”. Poderíamos aqui propor outros cruzamentos indo ao encontro de situações ainda mais depreciativas no que se refere à intensidade do preconceito, quando, por exemplo, uma pessoa possuía características de todos estes grupos identitários. Nestas situações, nem mesmo com a “cordialidade vil” da classe dirigente seria possível galgar espaços. Em resumo, o país sempre discriminou os mais diversos grupos identitários, mas, sobretudo, mulheres, LGBTQ+ e negros.

Agora pergunto: em que momento nossa capacidade de argumentação e interpretação perdeu estribeiras e rumos nos impedindo de ver o óbvio? É mister destacar que o Brasil do presente sempre esteve velado no do passado e que o Brasil do passado encontra-se revelado no do presente. Explico: com a chegada de governos progressistas — aqui representados pelos mandatos do Partido dos Trabalhadores — os grupos identitários — embora muito abaixo do que se precisa e deseja — passaram a ocupar espaços para além dos “permitidos” pela classe dirigente e pela população em geral (de percentual significativamente conservador nos costumes). Cabe reforçar, que tais vitórias dos grupos identitários são frutos de luta própria, por vezes intensa, e com ampla capacidade de enfrentamento, porém, chanceladas por governos com visão para tal.

Deste modo, bancos escolares e acadêmicos passaram a ser frequentados por pessoas pobres, em especial negros. Mulheres passaram a ingressar em cursos tidos “como de homens”, abdicaram da “obrigação de reproduzir” e passaram a viver de forma solo. LGBTQ+ saíram, sobretudo nas duas últimas décadas do século 20, do armário. Minorias (e aqui me refiro aos índices de acesso às oportunidades) passaram a reivindicar espaços impensáveis há bem pouco tempo.

Mas aqui, neste momento, se faz necessária uma modesta digressão: o preconceituoso, em estado de total ebulição, chocado com o novo desenho da sociedade brasileira, não se manifestava, pois, grosso modo, os governos progressistas, ao invés de criarem educação voltada à desconstrução de preconceitos e intolerâncias, naufragaram em sua incapacidade, criando, apenas e tão somente, um espaço maiúsculo de “espiral do silêncio”. Deste modo, o preconceito — outrora existente, porém letárgico — passou para o estado de “ebulição sem reação” (algo que só viria a acontecer quando da destituição das forças progressistas). Porém, é neste ínterim que o advento das redes sociais modifica o modus operandi da sociedade, dando vazão à ressonância que, embora já existente, habitava apenas a fila da farmácia, do metrô ou do pão.

Grosso modo, a parcela conservadora dos costumes — que não é exclusividade da direita reacionária — começou a exigir que “aeroporto não fosse rodoviária” e que universidade não fosse local para o filho do pedreiro ou da faxineira. Nada de novo naquela que é, como diria Mário Maestri, a nação mais bem acabada em sua estrutura escravagista. O Brasil passava a manifestar o preconceito, outrora existente, porém, agora, sem tanta vergonha assim. É o antropólogo Roberto DaMatta que lembra o nosso “preconceito de ter preconceito”, na contramão do racismo segregado do irmão do norte. Nosso racista tem vergonha de sê-lo, mas não deixa de assim o ser.

Quando tudo parecia um ringue, ao estilo luta livre sensacionalista dos anos 1980, o conservadorismo dos costumes, por motivos que não caberiam nesse pequeno aporte de ideias, elegeu seu fiel, honesto e digno representante. É neste momento que temos o final da equação. A família tradicional brasileira completa seu upgrade, ao romper a espiral do silêncio — não só com a ressonância das redes, mas com a legitimidade do discurso obtida pela representatividade do ódio daquele que os governa.

Para finalizar, não somos uma nação doente — e se somos, assim sempre fomos -, mas sim uma nação que perdeu, através da representação na cadeira do Planalto, a vergonha de admitir seu preconceito e de exigir a manutenção da ordem de sua cultura e herança colonial. Já as forças progressistas, completando seu manancial de inépcia interpretativa, oferecem discursos, discussões, textos e debates de “ordem política” para combater alguém que foi eleito exclusivamente pela “pauta dos costumes”.

É preciso entender de vez por todas que o preconceituoso não perde o sono se o seu real representante for corrupto ou inepto. Ele quer apenas que o negro limpe seu chão — e isso não desmerece a função de limpeza, mas define como espaço tolerado pelo branco — enquanto que ele defende-se do seu racismo com o álibi obtido na hashtag “vidas negras importam”. O mesmo preconceituoso quer que o LGBTQ+ “viva no seu canto” e que mulheres “cumpram seu papel”. E para todos estes desejos, o endosso está na cadeira presidencial e em toda a ordem que o constitui e cerca.

Onde está o problema? É que com a chegada do reacionarismo no poder, não foram os grupos identitários que saíram do armário, mas sim os conservadores dos costumes. E eles… não são tão poucos assim.

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