Subscribe Us

header ads

Sleeping Giants Brasil: O Primeiro Grande Movimento Popular Contra as Fake News no País

Por Gabriel Macedo 

 Publicação original: 27/07/2020


Imagem: Diego takamatsu


Image for post
(Getty Images/Reprodução)

Nos últimos anos, as notícias falsas — as fake news — se estabeleceram como uma das principais discussões públicas no mundo. É um problema complexo e amplo, envolvendo política, mídias e sistemas tecnológicos, apresentando-se, no discurso público, como algo que ameaça a legitimidade política dos processos democráticos e a formação da opinião pública dos cidadãos. Um estudo de 2018 que calculava a porcentagem da população exposta pelas Fake News realizado pelo ‘Reuters Institute Digital News Report’, mostrava que o Brasil ocupava a terceira posição entre os maiores índices de distribuição de notícias falsas no mundo com 35%, ficando somente atrás do México (41%) e da Turquia (49%).

  • Nasce o Sleeping Giants
Image for post
(Divulgação: Sleeping Giants)

Não muito diferente do Brasil, os EUA também são um dos grandes polos da indústria de notícias falsas e discursos de ódio. Pensando nisso, Matt Rivitz, um publicitário que observava como a publicidade programática estava causando estragos na reputação das marcas, decide criar em novembro de 2016, uma conta no Twitter com o nome “Sleeping Giants”, que na tradução direta para o português significa ‘Gigantes Adormecidos’. A motivação era muito simples: Informar e alertar as empresas de que a publicidade de seus produtos aparecia em sites de extrema direita.

Image for post
(Matt Rivitz, Sleeping Giants)

A princípio, o perfil era administrado de forma anônima, porém, depois de conseguir retirar cerca de 4500 anunciantes do site de extrema direita Breitbart News, um dos principais do país, o lobby do site supracitado conseguiu, após alguns meses, localizar Matt Rivitz através de mecanismos de busca da Deep Web. Após o vazamento de seus dados, Matt e sua família sofreram constantes ameaças de grupos extremistas dos EUA. Mas, ainda sim, o projeto seguiu vivo e avançou o suficiente para que hoje o perfil já esteja em mais de 12 países, incluindo o Brasil.

  • A chegada ao Brasil

Após uma matéria jornalística sobre o Sleeping Giants rondar o Brasil, um estudante de Direito, cujo seu trabalho de conclusão de curso diz respeito à notícias falsas, se inspirou a criar um perfil brasileiro da rede ativista digital que já estava presente em 11 países. Com medo de sofrer ameaças como Rivitz sofreu nos EUA, o criador do Sleeping Giants Brasil se conteve em dizer apenas que é um estudante. Até a data deste artigo é o único detalhe sobre o brasileiro que foi divulgado. Apenas no terceiro dia em atividade, o perfil brasileiro já conseguira 100 mil seguidores no Twitter, principal rede de divulgação do grupo. Além disso, também recebeu respostas, no mesmo período, de diversas empresas que anunciaram a remoção de publicidade do primeiro site alvo do perfil: O “Jornal da Cidade Online”. Destas empresas, podemos citar o Banco do Brasil, Dell, Domestika, History Channel, Loft, PicPay, Submarino e Telecine.

Além do “Jornal” citado acima, outros dois sites já foram alvos do grupo desde a criação do perfil em 18/05/2020 até hoje: O “Conexão Política” e o atual alvo “Brasil Sem Medo”.

Image for post
(Divulgação : Sleeping Giants Brasil)
  • Forma de Atuação

Os perfis oficializados do Sleeping Giants identificam a publicidade de grandes marcas em sites que publicam fake news, printam as páginas e jogam nas redes sociais, marcando as empresas e pedindo que removam o anúncio para, dessa forma, desmonetizar esses canais de notícias falsas. Tanto os administradores da conta quanto os apoiadores da iniciativa são estimulados a printar os anúncios em sites desse tipo e compartilhar nas redes sociais marcando o Sleeping Giants e as empresas em questão. Através da grande pressão pública feita , as empresas então ‘descobrem’ que suas propagandas estão presentes em sites maliciosos. O grupo seleciona um site por vez, o mantendo como alvo até que a publicidade seja removida completamente. Em uma entrevista à Tilt, o criador do perfil explica como é feito a escolha dos alvos:

“Infelizmente, preciso dizer que atualmente não focamos sites e, sim, apenas um, que foi o que mais espalhou fake news durante as últimas eleições. A verdade não tem lado. A mentira está em todo o lugar e estamos aqui para combatê-la mesmo que isso doa. A matéria do fact checking Aos Fatos, na qual nos baseamos para escolher o foco, traz as principais disseminações durante as eleições, e lá estão presentes mentiras dos dois “lados da moeda”. Mas a fake news é muito mais forte e propagada pela extrema direita. Isso está claro também na matéria através da comparação dos dados e provavelmente a CPMI da fake news irá comprovar isso.”

  • Como funciona a mídia programática
Image for post

Mídia programática é, basicamente, um mecanismo digital com duas pontas: De um lado estão os sites que querem vender espaços para anúncios, e do outro as empresas que querem anunciar nesses espaços. Os sites procuram uma agência especializada que vai cadastrar o endereço em uma plataforma de venda programática, chamada de SSP (Supply-side Platform). Hoje, o software mais conhecido da categoria pertence ao Google, o popular Google AdSense. As empresas, também com ajuda de uma agência especializada, compram publicidade programática em plataformas chamadas de DSP (Demand Side Platform). Mais uma vez é o Google que tem a ferramenta mais conhecida, o Google Display & Video 360, na sigla DV360.

As empresas informam o nicho onde querem ver os seus anúncios, e com isso a agência de divulgação, através de mecanismos de buscas e inteligência artificial, coloca os anúncios nos melhores sites condicionados as preferências da empresa. O problema entra aqui: Os mecanismos que o Google AdSense utiliza, por exemplo, não são inteligentes o suficiente para identificarem onde existe ou não fake news e discursos de ódio. Por isso ressaltamos que a maioria das empresas não sabem exatamente em que sites os produtos e serviços delas estão sendo divulgados. Por isso o próprio Sleeping Giants usa a expressão “alertar” as empresas.

  • Conquistas do movimento
Image for post
(Divulgação: Sleeping Giants Brasil)

Com auxílio de células regionais presentes nos estados do Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, até o dia 18/07/2020, data que o movimento fez 2 meses no Brasil, o número total de empresas mobilizadas era de 462. O número consta em um balanço das ações que marcaram os primeiros 60 dias da iniciativa feito pelo próprio Sleeping Giants Brasil. O valor total de desmonetização nos dois meses foi de R$1.000.812,00. A monetização via rede programática é calculada por CPM (Custo $ por mil visualizações), e foi estimada em aproximadamente R$10,00 nos referidos sites.

Postar um comentário

0 Comentários