por Nelson Melo Ribeiro
publicado em: 23/07/2020
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| Imagem: Diego Takamatsu |
A escravidão foi um período de grande prejuízo social a todos os escravizados, que se estende às gerações futuras, acarretando ainda danos atuais os quais refletem com a reprodução do racismo em diversas vertentes. Afinal, o fim da escravidão, legalmente falando, no Brasil se deu apenas em 1888, ou seja, não é de se causar espanto por encontrar netos de pessoas escravizadas.
Os reflexos da escravidão na sociedade atual sempre são atrelados ao povo preto, uma vez que são as maiores vítimas deste sistema racista que vivenciamos. A qual acaba reproduzindo a marginalização do sujeito negro, a ponto de ser visto e tratado como inimigo, unicamente pela cor da sua pele.
Essa forma de pensar o sujeito negro não se limita apenas de um indivíduo com o outro, ela reverbera em todas as relações necessárias para um ser político, quais sejam discriminação: em oportunidades de trabalho, negligência estatal para uma comunidade predominante negra, violência policial ao ser tratados como o “homem delinquente”.
Ao depararmos com uma injustiça social sofrida em uma pessoa de cor, é praticamente uniforme a associação da sociedade com uma leitura das relações escravocrata brasileira. Para falar a verdade, não precisa ser nem uma injustiça, apenas a existência da pessoa preta é suficiente para que seja realizada diversas analogias à escravidão, e muitas delas com o intuito de ofensa ou de diminuição, e outras de apenas trazer uma discussão à tona.
Caso cause surpresa identifiquemos alguns dos casos recentes que atrelaram a pessoa negra à escravidão de forma automática e coletiva. Com grande destaque, vimos o ex presidenciável Ciro Gomes, na eleição de 2018, chamar publicamente Fernando Holiday, vereador de São Paulo/SP, de “Capitãozinho do Mato”. Lembremos que a figura de Capitão do Mato era um escravo, pessoa negra, que vigiava os outros escravos, como também perseguia os fugitivos. Evocando a figura da escravidão, ao relacionar a cor da pele unicamente por discordância ideológica e com intuito de ofensa.

Também não é de se causar estranheza quando ocorrem abusos de violência pela parte do policial com a pessoa de cor, a lembrança da figura da escravidão para ilustrar o quão o sistema é desigual e que tende a proporcionar a opressão dos negros de forma sistêmica. Atrelando até a figura da Carteira de Trabalho como a “carta de alforria moderna”, para explicar que a Polícia só entende o negro como livre e dotado de direito caso possua um trabalho formal.
Ao olharmos para o período após a flexibilização do isolamento social, decorrente das medidas de prevenção ao COVID-19, uma fotografia, a qual viralizou na internet, de pessoas em um ônibus aparentemente indo ao trabalho majoritariamente composta por pessoas negras com a menção de “o novo navio negreiro”, relacionando imediatamente com o período da escravidão no Brasil.
Aparentemente a sociedade brasileira esquece que as pessoas negras não foram as únicas a figurar durante o período da escravidão. Pessoas brancas foram as quais aplicaram e impuseram esse regime, em prol do mercado, por terem atrelado o ser negro como um ser ausente de dignidade a ponto de ser escravizado, enquanto outras etnias possuíam regimes diferentes de labor. A título de comparação, os indígenas foram alocados no regime de servidão, enquanto os brancos foram agraciados com a mão de obra remunerada.
Porém, por mais que legalmente a escravidão tenha sido abolida, a sociedade ainda não aboliu a subalternação da pessoa de cor, marginalizando esse grupo específico a ponto de impor um pensamento que drasticamente inferioriza e não aceita a ocupação destas em alguns cargos profissionais referentes a trabalhos intelectuais.
Ainda, indo um pouco mais longe, conforme os breves relatos supracitados, o atrelamento da pessoa negra à escravidão está bastante viva na sociedade. E não dá pra falar que é puramente uma recuperação histórica uma vez que os brancos, quais são descendentes dos senhores de engenhos da época, não são comparados apenas são vistos como seres humanos de história única e presente, ou seja, baseada no hoje e não no passado, diferente das pretas.
A subalternização continua presente, uma vez que essa forma de pensamento foi imposta por uma herança colonial, a qual ainda não rompemos com essa imposição. Herança essa, que tem por base a implementação mercantilista, visando uma valorização do lucro, em prol da opressão racial. Desde a América colônia o ser negro não é considerado como ser humano, e sim por um primitivo, não sendo merecedor de dignidade.
E em razão dessa herança colonial é que vem o grande mote do texto. O atrelamento do povo negro à escravidão é feito de modo consciente ou inconsciente? Em uma sociedade que tem uma democracia construída sem ter feito um recorte para raça, mesmo que esta raça tenha conquistado unicamente a “liberdade” em 1888, e posteriormente, durante o período da Ditadura Brasileira, este grupo foi objeto de perseguição unicamente por conta da sua cor da pele, até por volta de 1985, 03 anos antes da promulgação da Constituição Federal que é vigente no Brasil.
Falar que essa subalternidade é atrelada de forma inconsciente é tratar o racismo como um episódio leve que pode ser corrigido a qualquer hora. O país formou esse pensamento. A sociedade vincula de forma natural a escravidão à pessoa negra, sem nem imaginar que está ofendendo a pessoa que está sendo comparada, afinal, a ela é visto como um ser humano no Brasil, ou como um ser negro?!
Enquanto o combate ao racismo não for colocado como política de Estado, e não apenas como figuração normativa, mas sim com ações concretas que prezam pela inserção da pessoa de cor nos espaços profissionais e políticos. Como também se faz necessário relembrarmos com um caráter mais sério o período da escravização dos negros, para entendermos de fato o papel do homem branco, como opressor, e o quão é ofensivo atrelar uma pessoa negra às figuras presentes da escravidão, impondo uma subalternização consciente de um grupo étnico dificultando a mobilidade social destas.




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