Por Hugo Maranduba
Publicação original: 31/07/2020
| Imagem: Diego Takamatsu |
Quando um presidente que é eleito democraticamente, está no exercício pleno do seu mandato, e é “convidado” pelos detentores do poder bélico a se retirar de suas funções, nenhuma nomenclatura define melhor essa situação a não ser Golpe de Estado. Algumas condições são determinantes para confirmação de que Bolívia sofreu um golpe. O governo que foi interrompido havia sido eleito democraticamente teve o principal ponto de desestabilização partindo das instituições do estado e de sua orbita, em especial pela ação de entidades como Polícia Nacional e Forças Armadas. Ademais, de um clima preparatório previamente construído por grupos midiáticos, comitês cívicos e alguns agentes políticos, a presença de todos esses fatores culminou em uma substituição de autoridades no país andino.


O movimento ao socialismo esteve por 14 anos a frente do país, era bastante tempo para uma elite financeira e militar bastante reduzida e em sua grande maioria sem raízes propriamente andinas, os 14 anos de gestão do “MAS” foi exaustivo para essa elite que aos poucos tiveram que ver os espaços de poder que outrora lhes pertencia, se reduzir e ser ocupado por povos originários. Perder o protagonismo mesmo que de forma democrática jamais foi aceito por essas elites, além do caráter racista que é bastante vivo na conjuntura política boliviana, pesava também a perda de privilégios nas exploração dos recursos do país.
A estadia do Movimento ao Socialismo no poder impulsionou uma revolução social no país, nos preços de commodities, os processos de nacionalização e outras jogadas econômicas elevou substancialmente a arrecadação financeira da Bolívia. Um povo desprovido de recursos e que outrora estava ocioso, passou a fazer parte da engrenagem financeira do estado, e o resultado é que em números proporcionais Bolívia se coloca entre os países mais bem sucedidos na América Latina no que refere a evolução social e crescimento econômico.


O último período eleitoral vai ficar marcado na história boliviana, pois durante todo o ano de 2019 o ambiente foi preparado para culminar no resultado que todos nós temos conhecimento. Notícias de uma possível fraude circulava por meios de comunicação e era amplamente comentado por grupos sociais, bem como a tentativa de associação do presidente Morales a atos pouco republicanos, situações que jamais chegaram a ser comprovadas. Às vésperas das eleições gerais a ideia de que se aplicaria uma “fraude monumental” a favor do candidato do MAS já estava presente em todas as camadas da sociedade.
É passível de ser questionado as sucessivas postulações de Evo a presidência, e uma ação legítima e optativa por cada cidadão, mas vale ressaltar que todas os mandatos praticado por ele foi chancelado em um ambiente democrático e através da vontade popular manifestada por voto da maioria absoluta do povo boliviano. Ainda vale ressaltar que essa quarta postulação de Evo era respaldada pela própria Organização dos Estados Americanos — OEA, que futuramente viria a ser a “luva” que se usaria para golpear Evo Morales e o movimento ao socialismo.
Findada uma jornada eleitoral que se chegasse ao final do seu processo confirmaria a vitória de Evo Morales no primeiro turno, daria-se início ao processo de convulsão no país, pois a elite já não suportariam mais 5 anos sem os privilégios que antes gozavam e já havia também o interesse externo nas riquezas naturais do país, em especial o lítio, elemento importante na fabricação de baterias elétricas e que a Bolívia detém as maiores reservas mundiais desse elemento.
A OEA foi peça chave para criar a convulsão quando questionou a interrupção na contagem rápida extra oficial, que segundo a organização a interrupção do sistema de contagem rápida e extraoficial com 85% das urnas apuradas poderia ser um indicativo de fraude. Essa postura bem como o seu relatório e a sua metodologia foram amplamente refutada por diversos estudos posteriores às eleições, que mostram quão era possível a vitória de Morales ainda em primeiro turno.


A Bolívia passa a ingressar um período conturbado. O pós eleição foi marcado por ataques a instituições, grupos contra o governo, queima de tribunais eleitorais, situação que impossibilitaria futuras recontagens ou auditorias que pudessem confirmar a vitória de Morales no primeiro turno. Grupos paramilitares praticaram sequestros e torturavam políticos e seus familiares. As forças armadas junto com a polícia já não respondiam o comando do governo. Posteriormente veio a luz que esses grupos negociaram vantagens financeiras com o governo que substituiria o MAS.
Diante de um país sitiado, sem apoio das forças armadas e com uma perseguição progressiva a membros do seu partido, o presidente Evo Morales optou por deixar o Bolívia. Era mais uma tentativa de pacificação e até mesmo para resguardar a própria vida. Com a saída de Evo e seu vice Linera, bem como a renúncia dos presidentes da câmara de deputados e do senado, o país ficou acéfalo, dando espaço a uma outra etapa do do golpe.


A “solução Jeanine Añez” foi a forma que a oposição encontrou para aparentar algo de legalidade ao golpe de estado. O caminho que ela percorre para chegar a presidência é dissertado em detalhes pela ativista e repórter Maria Galindo em um artigo intitulado “Sedición en la Universidad Católica” — Como os patriarcas armaram o golpe. Dentro de uma reunião a portas fechada na Universidade Católica da cidade de La Paz, com as presenças do Embaixador do Brasil, a interesse dos EUA e Bolsonaro, o ex-presidente Tuto Quiroga, representando a CIA, Fernando Camacho, executor do golpe e também o candidato Carlos Mesa (que havia sido derrotado por Evo nas eleições), bem como outras autoridades que não detinham legitimidade para tomar as decisões que ali foram firmadas.
Para consumar o acordado na referida referida, Jeanine Añez se autoproclama presidenta de Bolívia em uma sessão sem quórum, em um movimento parecido com o que sucedeu com Juan Guiado da Venezuela, quando EUA, Brasil e Argentina reconhecem de imediato a auto proclamação da presidente. A diferença fica por conta de que a oposição boliviana já tinha a maioria das instituições corrompidas ao seu favor para poder chancelar sem muita dificuldade o golpe de estado.

As primeiras semanas de Añez foram marcadas por forte repressão do exército a civis, com destaque negativo aos feitos em Sacaba e Senkata, quando dezenas campesinos foram assassinados pelas forças armadas e milhares ficaram feridos ou foram presos pelo exército. O país estava em convulsão e demandou um esforço muito grande o processo de pacificação temporária, mesmo com o golpe, o governo não conseguiu controle absoluto das instituições, pois o Movimento ao Socialismo tinha 2/3 dos congressistas ao seu favor e este segue sendo o bastão da democracia na Bolívia.

Para acalmar o país demandou grandes esforços, estes partiram destes gestores praticadas por Evo Morales em seu exílio, quando negociava com os movimentos sociais, como também de desgastantes rodadas de negociação entre o congresso “Massista” e o governo interino. A bandeira branca foi hasteada quando esse esforço resultou no compromisso de o governo interino em realizar o quanto antes novas eleições gerais.

O movimento ao socialismo foi golpeado mas não foi nocauteado, uma vez que mesmo com a saída inesperada de Evo Morales do processo eleitoral e seguidas manobras de perseguição política, o MAS parece permanecer intacto na sua fortaleza e com grandes possibilidades de repetir o resultado de outubro passado com o escolhido para substituir Evo, o economista Luis Arce Catacora, que lidera todas as pesquisas de intenção de voto e conta com grandes chances de vencer as eleições em primeiro turno.
Os grupos de direita não conseguem repetir a mesma sorte do movimento ao socialismo. Enquanto o grupo do ex presidente Evo Morales segue com a mesma estrutura da última eleição, ao menos 4 políticos que participaram ativamente do golpe de estado optaram por candidatura própria e nenhuma das candidaturas conseguem decolar a ponto de ameaçar o movimento ao socialismo. Por ter consciência de que através do voto direto não obteriam êxito, diversas manobras vem sendo aplicada para manter o golpe, dentre elas, a postergação sucessiva da jornada eleitoral.

A presidente interina está jogando em campo minado para se manter no poder, a população valoriza bastante as conquistas alcançadas e tem total consciência do quanto vale os recursos naturais de sua nação. Já não vivemos tempos obscuros onde ações dos poderes regentes eram ocultas. O governo da presidente Jeanine Añes está mergulhado em práticas republicanas pouco aceitáveis, somando isso com as contas a pagar deixada pelo golpe e a má gestão do governo no combate ao avanço da pandemia do coronavírus, dificilmente o governo de fato se manterá no poder, ao menos pelas vias democráticas.
De maneira alguma é possível descartar a possibilidade de um contragolpe, as elites bolivianas tem a força militar do seu lado e muito recurso foi destinado para essa área nos últimos meses. Se um golpe foi dado, um contragolpe não seria novidade, caso ocorresse. Muita coisa está em jogo nesse momento, elas vão desde a vontade das elites bolivianas retomarem de forma definitiva do poder ao interesse estrangeiro nos recursos naturais do país.
A única certeza que podemos guardar é de que haverá resistência, pois a Bolívia é um país de gente aguerrida e bem agrupada politicamente, que dificilmente aceitará retroceder nos avanços alcançados e de nenhuma maneira voltará a submissão de tempos atrás, o povo boliviano já está nas ruas!
“volveré y seré millones”. Túpac Katari.














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